Frio muito intenso nos próximos dias, neve, geada e congelamento

Massa de ar polar de grande intensidade invade o Brasil entre terça e quarta com perspectiva de frio extremo em algumas regiões, neve, geada e geada negra, congelamento e ainda sensação térmica excepcionalmente baixa

A semana que começa será influenciada pela massa de ar frio de origem polar mais forte a alcançar o Brasil até agora neste ano, mas os seus reflexos não se darão com a mesma força das últimas duas ondas de frio no Centro-Sul do Brasil. Em muitas cidades do Sul do país será o frio mais intenso de 2021 até agora, mas na maior parte das localidades do Centro-Oeste e do Sudeste as marcas do final de junho e da última semana não deverão ser batidas. No período de quarta a sexta-feira, a temperatura deve ficar entre 10ºC e 15ºC abaixo do que é normal (anomalia) no Centro-Sul do país.

Mapa de anomalia de temperatura em 1.500 metros (e não de temperatura em superfície) do modelo meteorológico canadense mostra como a massa de ar polar é muito intensa e atingirá uma extensa área | MetSul

O ar polar começa a ingressar no Rio Grande do Sul no decorrer da terça-feira, quando se espera que as mínimas ocorram à noite, no final do dia, quando vai começar a ficar muito frio. Na quarta-feira, o ar polar rapidamente toma conta do Sul do país e chega aos Centro-Oeste e ao Sudeste do país. Será uma “bolha” de ar gelado de grandes dimensões e que será responsável por um acentuado resfriamento em diversos estados brasileiros no meio da semana.

Modelos numéricos analisados pela MetSul seguem indicando que a temperatura no nível de pressão de 850 hPa, equivalente a 1.500 metros de altitude, que é parâmetro usado em Meteorologia para identificar o quão quente ou fria é uma massa de ar, ficaria entre -5ºC e -7ºC no Sul do Brasil. Tais valores, que não representam temperatura em superfície, só são vistos na parte meridional do território brasileiro em erupções de ar polar de grande potência como 2000, 2007, 2009 e 2012.

Esta será uma das erupções de ar polar de maior intensidade dos tempos recentes no Sul do Brasil e as marcas mínimas em algumas estações, especialmente de municípios de maior altitude, devem ficar entre as mais baixas registradas nos primeiros 20 anos deste século, mas, no geral, a onda de frio não deve superar em força as ondas de frio, por exemplo, dos anos 2000 e 2012. Mesmo assim, nos casos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, deve figurar entre as mais fortes da história recente.

Trata-se de uma massa de ar polar de trajetória continental com um centro de alta pressão atmosférica que vai se deslocar do Norte da Argentina para o Sul do Brasil com valores entre 1.030 hPa e 1.035 hPa. O posicionamento do centro de alta sobre o Sul do país no final da semana favorecerá mínimas ainda mais baixas com a diminuição da nebulosidade e a atmosfera mais seca.

Muitos dias gelados em sequência

Rio Grande do Sul e Santa Catarina podem enfrentar seis a sete dias seguidos com mínimas abaixo de zero em seus territórios. De quarta até domingo que vem a tendência é que ocorram marcas negativas no Sul do país com o frio mais intenso na média do dia inteiro entre quarta e sexta. As menores mínimas devem ocorrer na sexta-feira, quando muitas cidades terão marcas abaixo de zero.

Mesmo com a presença do sol, as tardes devem ser de temperatura máxima baixa entre a quarta-feira e sexta, sequer chegando aos 10ºC em muitos municípios. A presença de nuvens, ademais, em alguns dias pode fazer com que algumas cidades de maior altitude tenham temperatura negativa ou perto de 0ºC durante todo o dia entre quarta e quinta, em particular nos Campos de Cima da Serra e no Planalto Sul Catarinense.

Grande parte dos municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná deverão ter mínimas próximas ou abaixo de zero na segunda metade da semana com o amanhecer mais frio na maioria dos municípios previsto para a sexta-feira.

No Rio Grande do Sul, marcas de -7ºC a -9ºC podem ser registradas nos Campos de Cima da Serra e em baixadas da região da Serra do Sudeste e da área de Soledade. Na Serra Gaúcha e no Cenytro-Serra (área de Sobradinho), as mínimas em baixadas devem ficar entre -4ºC e -6ºC. Pontos do Noroeste gaúcho e do Planalto Médio poderão ter mínimas tão baixas no final desta semana quanto -4ºC a -5ºC.

A Campanha e a fronteira com o Uruguai podem registrar mínimas de -1ºC ou -2ºC, isoladamente se aproximando de –3ºC. Na Grande Porto Alegre, marcas de -1ºC a 1ºC no final da semana com a Capital podendo descer a 1ºC ou 2ºC, mas com marcas até 2ºC a 3ºC inferiores em regiões periféricas da cidade.

Em Santa Catarina, a segunda metade da semana deve ter mínimas extremas de -8ºC a até -10ºC em locais de maior altitude do Planalto Sul, entretanto marcas ainda menores não são descartadas em baixadas mais para o final da semana nas áreas de Bom Jardim da Serra, Urupema e São Joaquim. No Paraná, os locais mais frios devem ter, em geral, entre -3ºC e -5ºC com marcas isoladamente inferiores.

No Sul do Brasil, no momento inicial, quando da entrada do ar mais gelado entre terça e a quinta, as menores mínimas devem ocorrer em estações situadas em topos de municípios. É o que normalmente ocorre durante o processo de advecção de ar frio. No segundo momento, na sexta-feira e dias seguintes, com o centro de alta sobre o Sul do país, tempo mais aberto e vento mais fraco, as baixadas passarão a dominar as mínimas.

O Sul do Mato Grosso do Sul e o Sul e o Leste de São Paulo também devem ter muito frio neste episódio gelado, mas nesta onda polar o frio será menos abrangente no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil que na onda de frio da última semana e em junho. O motivo é que nos dois eventos passados atuavam ciclones intensos nos litorais do Uruguai e do Rio Grande do Sul.

Quando isso ocorre forma-se uma “língua” de ar gelado e seco que invade o Brasil Central. Sem um ciclone intenso na costa agora, mesmo sendo uma massa de ar frio de maior potência desta vez, o frio não deve ser sentido como em junho e na última semana em muitas cidades da parte central do Brasil. Este é o motivo pelo qual esta massa de ar polar não será sentido como as mais recentes deste inverno em muitas áreas do Brasil Central.

A cidade de São Paulo, entretanto, por estar mais perto da costa e mais ao Sul da Região Sudeste do Brasil deve sentir com força este episódio de ar gelado entre quarta e sexta. Na quarta se espera chuva, vento e frio. Na quinta, o frio prossegue forte. E, na sexta, o amanhecer será gelado com chance de geada em diversos bairros e marcas negativas no Sul da cidade.

Existe a possibilidade de a mínima no Mirante de Santana, estação de referência histórica na cidade juntamente com a do IAG/USP, cair a valores entre 3ºC e 5ºC na sexta. Em se concretizando, o amanhecer da sexta em São Paulo seria o mais frio em muitos anos. A Grande São Paulo, igualmente, pode ter marcas negativas e geada.

Sensação térmica

A MetSul Meteorologia alerta para muito baixa sensação térmica por efeito do vento já começando na noite de terça-feira e, especialmente, na quarta e na quinta-feira. Mesmo sem um ciclone intenso na costa como nos dois últimos eventos de ar polar, espera-se vento por vezes moderado e com ocasionais rajadas pela grande intensidade do ar frio.

Ademais, haverá um centro de baixa pressão – mesmo sem configurar um grande ciclone – que evoluirá da costa da Argentina para o Sudeste gaúcho sobre o oceano que favorecerá o vento e a advecção fria.

Assim, a sensação térmica neste evento de frio será muito relevante. Com vento e temperatura excepcionalmente baixa como se prevê, grande número de cidades do Centro-Sul do Brasil pode experimentar marcas baixíssimas de sensação térmica.

Nas áreas de maior altitude do Rio Grande do Sul e do Sul do Brasil valores de sensação térmica (utilizando-se a fórmula mais moderna do National Weather Service dos Estados Unidos) podem atingir marcas neste evento polar tão baixas quanto -10ºC a -20ºC.

No alto do Morro da Igreja, em Santa Catarina, a 1.800 metros de altitude, e em picos como o Morro das Antenas, em Urupema, a sensação térmica pode ficar entre -20ºC e -25ºC. Valores de -15ºC a -20ºC de sensação podem ocorrer no Monte Negro, em São José dos Ausentes.

São valores perigosos que podem causar até congelamento da pele e do tecido inferior (frostbite) de partes expostas do corpo como dedos. Portanto, turistas que se dirigirem a estes locais devem estar cientes do frio extremo e da necessidade de proteção extra para o vento forte e a sensação excepcionalmente baixa.

Geada e geada negra

Vento e nuvens, em princípio, devem impedir uma sequência de dias de geada ampla e generalizada no Centro-Sul do Brasil. As projeções de geada em maior número de locais são mais para o final do período de pico da onda de frio, logo no final da semana. Mesmo assim muitas áreas já devem ter geada na quarta e na quinta.

Como destacado, a abrangência deste frio será menor no Brasil Central que nos dois episódios gelados anteriores e a maior preocupação com geada se concentra no Sul do Mato Grosso do Sul e no Sul e Leste do estado de São Paulo. A sexta-feira deve ser o dia de geada mais ampla no Centro-Sul do país.

Projeção de geada para o amanhecer desta sexta-feira do modelo canadense | MetSul

Uma preocupação da MetSul neste evento, considerando a perspectiva de vento e de frio abaixo de zero em muitos locais, é o alto risco de que se produza a chamada geada negra.

Não é a forma tradicional de geada que branqueia paisagens e cobre de gelo automóveis e telhados. Trata-se de um fenômeno em que se dá a morte de vegetais por congelamento. O risco de geada negra é alto em localidades de média e elevada altitude.

Neve

A probabilidade de nevar nas áreas de maior altitude do Sul do Brasil com base nos dados analisados pela MetSul segue altíssima. Não se espera, entretanto, um episódio de neve como de 2013. A possibilidade de neve que vinha sendo indicada no final da última semana pelo modelos numéricos de quarta até sexta hoje se concentra mais entre quarta e quinta.

Hoje, o cenário que se apresenta, a partir da modelagem numérica e análise de eventos passados com características semelhantes, sinaliza a chance de precipitação invernal (neve em flocos, chuva congelada e/ou graupel) por demais alta nos pontos mais elevados do Sul do Brasil (cotas de altitude acima de 800 metros), chance intermediária em locais de média altitude (500 metros a 700 metros) e pequena em pontos de menor altitude (nível do mar a 400 metros) de diversas regiões gaúchas e do Sul do Brasil.

Já não se pode descartar neve cedo na quarta-feira na retaguarda da frente fria, mas a maior probabilidade de ocorrência do fenômeno é entre a noite de quarta e a manhã da quinta-feira. As regiões com mais alta chance são a Serra Gaúcha, os Aparados da Serra e o Planalto Sul Catarinense.

Há possibilidade, porém, de o fenômeno vir a ocorrer em locais como o Meio-Oeste catarinense, o Planalto Norte de Santa Catarina, e o Sul do Paraná. Com probabilidade menor, mas não desprezível, não se afasta neve em locais da Campanha gaúcha e da Serra do Sudeste assim como no Planalto Médio e Alto Uruguai, o que se estende ao Oeste catarinense e o Sudoeste do Paraná.

Em cidades de baixa altitude não se descarta precipitação invernal na forma de graupel ou chuva congelada.  Em locais de menor altitude ou próximos do nível do mar, em caso de instabilidade, pode ocorrer chuva congelada.

Os mapas a seguir, disponíveis na seção de modelos com diversas atualizações diárias, mostram a tendência de neve neste evento de frio polar pelos modelos norte-americano GFS, canadense CMC e o alemão ICON.

Entre as cidades com maior possibilidade de registro de queda de neve estão, assim, São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Jaquirana, Bom Jesus, São José dos Ausentes, Vacaria, Bom Jardim da Serra, São Joaquim, Urupema e Urubici.

Modelos que vinham indicando neve no interior do Uruguai no final da semana passada deixaram de indicar tal possibilidade, mas a MetSul entende que pode ocorrer precipitação invernal no país vizinho e na província de Buenos Aires.

Cuidados especiais com o frio

Frio e intenso no inverno é normal, mas a intensidade desta massa de ar polar deve ser maior do que a média da grande maioria das erupções de ar frio que nos alcançam rotineiramente nesta época. Não será um evento de ar polar que fuja aos episódios mais frios que já enfrentamos, sequer superando alguns dos mais fortes nos últimos 20 anos, mas será um evento muito intenso e que exige atenção por riscos envolvidos.

Urge-se, inicialmente, às autoridades locais que reforcem com urgência as medidas de assistência à população socialmente vulnerável, especialmente diante do crescimento da população sem teto vivendo em situação de rua, uma vez que o frio terá intensidade para causar hipotermia e morte em pessoas desabrigadas. Frio abaixo de zero e sensação térmica serão de alto risco para quem estiver em condições precárias de exposição ao frio.

O público, em geral, deve estar ainda muito atento ao risco de incêndios domésticos. A última semana registrou um alto número de incêndios em casas e apartamentos resultados do uso de aquecedores. O Corpo de Bombeiros orienta que se evite colocar roupa ou tecidos sobre aquecedores e que estufas e lareiras exigem cuidados.

A MetSul chama atenção, por fim, para o alto risco de gelo na pista em ruas, avenidas e principalmente em rodovias das áreas de maior altitude do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Frente fria trará chuva entre segunda e terça e o resfriamento posterior vai se dar de forma muito rápida de terça para quarta. Com pista úmida ou água vertendo de encostas é alto o risco de que se forme gelo com possibilidade de acidentes de trânsito.

fonte: Metsul

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